Finais de 1922. Na estação do Carregueiro a multidão apertava-se de forma a conseguir dizer o último adeus, dar o último abraço apertado, tentando esconder aquela lágrima que teimava em cair. Enquanto a dor da despedida aumentava, o desespero intensificava-se, a agonia do abandono parecia querer evitar o destino que parecia marcado.

Não eram só eles, os dois irmãos, o Joaquim e o Manuel, eram também os seus amigos de brincadeiras, os seus vizinhos, muitas das crianças que estavam a ser quase “obrigadas” pelas suas famílias a sair das suas casas, a abandonar a vida que sempre conheceram e irem para um futuro que desconheciam por completo, para locais que apenas conheciam de nome, para outras famílias que esperavam por eles.

Mas, ao contrário do que se possa pensar, esse abandono forçado das suas famílias eram apenas e só para que o Manuel, o Joaquim e todas as crianças que ali estavam, naquele apeadeiro, pudessem ter um futuro melhor, que a sua sobrevivência não fosse colocada em causa.

Os seus pais, mineiros nas Minas de Aljustrel, estavam em greve já fazia alguns meses… as poucas posses já tinham esgotado há muito… a fome e a miséria alastravam cada vez mais naqueles humildes casebres que lhes serviam de habitação.

A luta dos mineiros para conseguir algo mais do que a jorna miserável que a empresa estrangeira lhes pagava durava há muito tempo. O patrão, com o apoio do poder, fazia finca-pé da sua posição mas esquecia-se da dignidade, da honra e da força do mineiro.

Este braço de ferro durou quatro longos meses…

Os dois irmãos não sabiam ao que iam. Apenas lhe tinham dito que iriam uns tempos para Beja, enquanto alguns dos seus amigos iriam para o Barreiro e outros para Lisboa.

O receio de ambos, face ao desconhecido, a angustia de abandonarem o seu humilde lar, o desespero de largarem os seus pais, tudo isso se refletia naqueles rostos magros, assustados e ansiosos.

Com o aproximar da hora de partida mais gente se acotovelava naquela pequena gare ferroviária. Estavam famílias inteiras, as mães com os sacos de serrapilheira nas mãos, onde os parcos haveres dos seus filhos foram colocados e que resistiam a entrega-los, tentando assim evitar que a hora da despedida chegasse.

O Manuel e o Joaquim não se afastavam. Por vezes aqueles corpinhos magros e desnutridos pareciam colar-se um ao outro, tentando dessa forma manter-se unidos. Sabiam que teriam que ir.

O sacrifício dos seus pais ao envia-los para longe do lar era para o seu bem. Para evitar que lhes acontecesse o que já tinha acontecido ao Tonico e ao Zé Manel, que devido aos escassos cuidados de saúde, à falta de condições de sobrevivência os tinham abandonado cedo demais.

Já se ouvia o comboio ao longe. O seu longo apito anunciava a chegada ao Carregueiro. Cada vez mais se aproximava a hora da despedida. As mães apertavam junto a si os filhos e as filhas que por força da miséria que viviam, se viam obrigadas a deixar ir.

As lágrimas começaram a cair. Uma a uma, as mulheres tentavam animar as crianças mas as lágrimas não conseguiam disfarçar toda a sua dor. Os homens, os mineiros endurecidos pelo ofício, assistiam um pouco afastados.

Ao olharmos para os seus rostos, para os seus olhos brilhantes, onde as lágrimas bailavam, tentando sair, mas presas de uma forma que só os homens embrutecidos pela vida no interior das minas conseguiam segurar, conseguíamos absorver toda a dor do momento.

Antónia, a mãe dos dois miúdos, ao chegar a hora do embarque não conseguiu falar. Apenas os abraçou com toda a força da sua existência, tentando naquele momento transmitir-lhes todo o amor que sentia.

O Manel, o pai, aproximou-se, passou-lhe as mãos pelos cabelos desgrenhados, afagou-lhes as carinhas, tentou ajeitar-lhes as casacos sovados mas lavados e apenas lhes disse: meus filhos, vocês sabem que é preciso ir. Não será por muito tempo, antes do natal já devem estar em casa. Portem-se bem e façam tudo o que lhes mandarem. Assim que acabou de dizer a ultima palavra, pegou no lenço que muitas vezes servia de máscara na mina e assoou-se.

De repente tinha ficado constipado…

Pequena rábula baseada nos escritos sobre a greve mais longa realizada em Portugal pelos mineiros. Homens que nunca se subjugaram. Que lutaram pelos seus direitos. Que lutaram pela sua dignidade. Que deveriam servir de exemplo para muitos. Que sacrificaram as suas famílias.

Que estiveram em greve 4 meses entre 1922 e 1923.

Homens, que mesmo com tudo o que sofreram, foram exemplos.

José Francisco Encarnação