“Há 20 anos, quando estive no Clube Náutico de Mértola, que presidi durante 10 anos, toda a gente estranhava. Perguntavam mesmo como é que uma mulher estava à frente do clube. Nessa época as pessoas admiravam-se muito. Agora já não! Já se veem muitas mulheres no desporto. Nesta direção do Guadiana eu tenho mais duas mulheres que são mães de atletas e que envolvemos neste executivo”.

Texto Firmino Paixão
Foto Jorge Branco

Eugénia Monteiro, atual presidente do Clube de Futebol Guadiana, de Mértola, está há muitos anos ligada ao associativismo desportivo e cultural. Um pouco pela via da sua atividade profissional no município de Mértola, outro tanto pelo espírito de missão com que tem servido os emblemas da sua terra.
Nascida em Mértola há 53 anos, deixou a presidência do Clube Náutico de Mértola em 2003, numa altura em que estava tudo estruturado ao nível da criação do centro de estágio. Por isso, entende que “as mulheres têm uma certa sensibilidade para algumas áreas, tornam as coisas mais fáceis do que os homens”.
Desde então tem integrado os órgãos sociais do clube do futebol local e agora é a “mulher do leme”. Explica como se meteu nisto: “O anterior presidente tinha decidido não se recandidatar. Uns meses antes começou a convencer-me que eu seria a pessoa ideal para assumir o lugar, embora também me apetecesse fazer uma pausa, porque têm sido anos atrás uns dos outros como dirigente, numa coisa ou noutra, e queria descansar”.
Mas como ninguém se chegava à frente, Eugénia Monteiro não resistiu: “Senti o peso da responsabilidade pelos projetos que tínhamos em mãos. Criámos uma secção de trail que já está a competir a nível nacional, criámos outra secção de BTT que está com grande impacto, temos protocolos com as autarquias e questionei-me sobre o futuro de tudo isto, naturalmente, para além do futebol, onde também temos responsabilidades, nomeadamente na área da formação”. Depois, em casa, a família deu-lhe uma forçazinha, o marido João José, antigo atleta do clube, vive o clube com uma invulgar intensidade: “Em casa só se fala futebol, o meu marido respira futebol e eu tenho estado todos estes anos ao lado dele a viver o Guadiana. Habituei-me a ir todos os dias ao campo de futebol”.

Delegar funções A primeira decisão enquanto presidente não foi fácil e passou pela renúncia ao escalão de iniciados, por falta de miúdos, na sede do concelho, em número suficiente para fazer uma equipa e o clube não tem recursos para andar pelas freguesias a recolher jovens para virem treinar a Mértola: “Tivemos que tomar essa decisão, embora nos entristeça. Fica sempre a mágoa de não conseguirmos competir em todos os escalões”.
Quando quisemos saber se a presidente andará sempre na linha da frente ou se tem na retaguarda uma equipa capaz para delegar responsabilidades, Eugénia Monteiro confidenciou-nos: “Nas modalidades, as tarefas estão já delegadas, no futebol ficarei mais ligada à formação e tenho dois colegas de direção que assumiram os seniores. Já foram atletas, têm muitos anos de futebol e tenho toda a confiança neles. A ideia é fazer equipas de trabalho e delegar funções, porque não se pode sobrecarregar uma só pessoa”.
Mas com tal dinamismo, com esta paixão pelo associativismo, “algo que está dentro de mim”, confessa, depois de presidir ao Náutico de Mértola e ao Guadiana… “se mais mundo houvera”, Eugénia Monteiro lá chegará. “Não sei, vamos ver, para já os desafios vão surgindo e enquanto eu puder vou correspondendo”, assegura.
Um elemento comum é o “grande rio do sul”, nas pagaiadas do Náutico, na nomenclatura do clube de futebol: “Sim, existe uma grande paixão pelo rio Guadiana, enquanto dirigente do Náutico tive sempre uma grande ligação com os pescadores e com tudo o que tinha a ver com o rio, não só com as canoas, havia uma ligação estreita, vivíamos o dia a dia com os pescadores, algo que já trazia de pequena, porque vivi sempre no centro histórico da vila e tive sempre esta afinidade. É algo que está cá dentro!”.
Eugénia Monteiro diz também que, trabalhando na área do associativismo, vê que cada vez há mais dificuldade em ter pessoas para desenvolver as associações: “Porque é algo de que gostamos, é importante mostrarmos às outras pessoas que, se estivermos todos juntos, não será tão difícil fazermos qualquer coisa, num concelho cada vez mais desertificado”.
Ainda assim, o reconhecimento da comunidade é essencial e Eugénia Monteiro sente que ele existe: “As pessoas têm um certo carinho por aquilo que fazemos pelas populações e isso é algo gratificante”. Por outro lado, não alimenta grandes sonhos: “As coisas vão surgindo, aprendi que devemos trabalhar um bocado todos os dias para tentar que as pessoas à nossa volta tenham algumas condições para viverem melhor”.
Cortesia – DIÁRIO DO ALENTEJO